Boas-vindas
Hoje vamos ler o discurso mais famoso da língua inglesa.
Ele vem de Hamlet, escrito por William Shakespeare por volta do ano 1600.
Shakespeare escreveu 37 peças — comédias, histórias, tragédias — mas Hamlet é a peça mais encenada do mundo. Ela foi montada, filmada e adaptada mais do que qualquer outra obra na história do teatro.
A História
O que acontece em Hamlet?
Aqui está a premissa: o pai do Príncipe Hamlet, o Rei da Dinamarca, morreu. Seu tio Cláudio se casou com a mãe de Hamlet e assumiu o trono.
Então um fantasma aparece — o fantasma do pai morto de Hamlet. O fantasma conta a Hamlet um segredo terrível: Cláudio o assassinou. Derramou veneno em seu ouvido enquanto ele dormia.
O fantasma exige vingança. Mas Hamlet é um pensador, não um guerreiro. Ele está paralisado pelo peso do que lhe foi pedido para fazer.
E no meio dessa crise, sozinho no palco, Hamlet pronuncia as palavras mais famosas de toda a literatura.
Ser ou Não Ser
O Solilóquio
Um solilóquio é quando um personagem fala seus pensamentos em voz alta no palco, sozinho. O público ouve o que nenhum outro personagem pode. É pensar em voz alta — cru, sem filtro, privado.
Aqui está o solilóquio mais famoso de Hamlet, do Ato 3, Cena 1:
Ser ou não ser — eis a questão:
Será mais nobre sofrer em silêncio
As pedradas e flechadas da fortuna adversa,
Ou pegar em armas contra um mar de problemas
E, resistindo, dar-lhes fim? Morrer — dormir —
Nada mais — e com esse sono dizer que se encerra
A dor do coração e os mil choques naturais
A que a carne está sujeita — é uma consumação
Devotamente a ser desejada. Morrer — dormir;
Dormir — talvez sonhar. Ah, aí está o problema,
Pois naquele sono da morte que sonhos virão
Quando tivermos saído deste invólucro mortal
Deve nos dar pausa. É esse respeito
Que faz da calamidade uma vida tão longa.
Pois quem suportaria os açoites e escárnios do tempo,
O erro do opressor, o desprezo do orgulhoso,
As dores do amor desprezado, a demora da justiça,
A insolência dos poderosos e os insultos
Que o mérito paciente recebe dos indignos,
Quando ele mesmo poderia fazer o seu quietus
Com um simples punhal? Quem carregaria fardos,
Gemendo e suando sob uma vida cansativa,
Senão o pavor de algo depois da morte,
O país não descoberto de cujos confins
Nenhum viajante retorna, que perturba a vontade
E nos faz preferir suportar os males que temos
A voar para outros que não conhecemos?
Assim a consciência faz covardes de todos nós,
E assim a cor natural da resolução
Fica doentia com a palidez do pensamento,
E empresas de grande alcance e importância
Com essa consideração desviam seus cursos
E perdem o nome de ação.
Reserve um momento para relê-lo devagar. Deixe a linguagem envolvê-lo.
Frases-chave
Desvendando a Linguagem
Shakespeare preencheu este discurso com imagens vívidas. Vamos examinar três das frases mais importantes.
"As pedradas e flechadas da fortuna adversa"
Hamlet imagina os problemas da vida como armas — pedradas (como um estilingue que arremessa pedras) e flechas — disparadas contra nós pela fortuna, que é cruel e injusta. A vida ataca você, e você tem que decidir se aguenta.
"Dormir — talvez sonhar"
Hamlet compara a morte ao sono — o que soa tranquilo. Mas então ele se detém: se a morte é sono, pode haver sonhos. E que tipo de sonhos vêm com a morte? É isso que o aterroriza. A morte pode não ser a fuga que ele espera.
"O país não descoberto de cujos confins nenhum viajante retorna"
Este é o nome que Hamlet dá à morte: um país não descoberto. Um lugar de onde ninguém jamais voltou. Um confim é uma fronteira ou limite. Uma vez que você o cruza, não há retorno.
Passivo vs Ativo
O Debate Real
Este discurso é frequentemente reduzido a uma questão sobre suicídio. Mas é maior do que isso.
Hamlet está perguntando: é melhor suportar a injustiça ou lutar contra ela?
Olhe para as primeiras linhas novamente:
Será mais nobre sofrer em silêncio / As pedradas e flechadas da fortuna adversa, / Ou pegar em armas contra um mar de problemas / E, resistindo, dar-lhes fim.
Opção A: sofrer passivamente. Aceitar o que a vida lhe impõe.
Opção B: agir. Lutar — mesmo que isso signifique sua própria destruição.
Hamlet foi instruído a vingar o assassinato de seu pai. Ele sabe o que deve fazer. Mas não consegue se forçar a agir. A peça inteira é sobre essa paralisia.
Como Shakespeare Escreve
A Música do Discurso
Shakespeare escreveu a maior parte de Hamlet em pentâmetro iâmbico — um ritmo de cinco batidas por linha, alternando sílabas átonas e tônicas: da-DUM da-DUM da-DUM da-DUM da-DUM.
Ouça a abertura: ser OU não SER — eis A ques-TÃO. Cinco batidas. Soa como um batimento cardíaco.
Mas Shakespeare não era apenas um músico do ritmo. Ele era um mestre da metáfora — descrever uma coisa em termos de outra para fazê-la ver diferente.
Só neste discurso, a vida é uma batalha (pedradas e flechadas), a morte é sono (morrer — dormir), o sono contém sonhos (talvez sonhar), a morte é um país não descoberto, e o pensamento é uma doença que deixa a resolução doente (doentia com a palidez do pensamento).
Note também que o discurso inteiro é feito de perguntas, não de respostas. Shakespeare entendeu que a coisa mais poderosa que um escritor pode fazer é fazer uma pergunta tão boa que ela o assombra.
Hamlet Vive
Hamlet no Mundo Moderno
Todo filme de super-herói tem um momento 'ser ou não ser' — a cena em que o herói deve decidir se aceita a responsabilidade ou vai embora.
E o enredo de Hamlet foi recontado mais vezes do que você imagina. O Rei Leão é literalmente a história de Hamlet: um príncipe cujo pai é assassinado pelo tio, que toma o trono, enquanto o príncipe vai para o exílio e deve decidir se volta para lutar.
Hamlet aparece na ficção científica, nos videogames, no hip-hop, nos dramas de tribunal. Sempre que um personagem está paralisado por uma escolha entre agir e não agir — entre a justiça e a autopreservação — você está assistindo ao dilema de Hamlet.
A razão pela qual esta peça perdura não é porque ela responde à pergunta. É porque ela a formula tão perfeitamente que cada geração reconhece sua própria luta nela.
O que Você vai Levar?
Um Último Pensamento
Você acabou de ler e analisar o discurso mais famoso da língua inglesa.
Quatrocentos anos depois que Shakespeare o escreveu, as pessoas ainda o citam, debatem sobre ele e se reconhecem nele.
Esse é o poder de fazer a pergunta certa.